segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Da miséria do meio estudantil-universitário


Pode-se afirmar sem grande risco de erro, que não há ser mais universalmente admirado no Brasil(depois dos atores globais e do BOPE) que o estudante universitário. A universidade, esta mãe gorda e gentil que acalenta os sonhos mercantilizados(ou seja, tornar-se dirigente de algum projeto revolucionário ou de algum holding transnacional – no fundo ambas costumam funcionar sob a mesma estrutura hierárquico-organizacional)[1] do estudante universitário, geralmente está circunscrita numa formação geográfica rodeada de mar, que os professores chamam carinhosamente de “linguagem acadêmica” e que é a responsável pelo lustro da armadura moral que o universitário tem de vestir na selva de pedra do conhecimento senso comum.

Não há mais dúvida, dentro do atual esquema de organização econômica e social, que há uma função central do universitário que corresponde às expectativas dos controladores deste sistema(gestores de capital [2] e gestores de trabalhadores [3]), que é a manutenção do status quo e das estruturas de poder, estruturas que o retro-alimentam e já fazem parte das mais modernas técnicas de engenharia social: a simulação. Esta estrutura é indispensável à ilusão democrática, já que mercantiliza a rebeldia em forma de tinta-guache para caras-pintadas ou papel carbono para cédulas de eleições do C.A dando a impressão de que há por fim uma esquerda oposicionista “radical”(a dona-de-casa iludida acredita piamente que seu rapazote de 23 anos vai ao encontro nacional de estudantes de sua categoria para resolver o problema da classe trabalhadora e da opressão por gênero, mas isto não é o pior, ele também!).

Cientes desta incrível capacidade de dissimular, não é de se espantar a quantidade de micro-exércitos da salvação(com suas hierarquias vermelhas, medalhinhas e fardas) atuando dentro do seio da mater universidade; todos querem apropriar-se dos melhores “quadros” da elite intelectual de dissimuladores do país, para endossarem seus projetos de conquista do poder com uma base social dirigida, também chamada pelos esquerdistas e autonomistas de rebanho.[4]

Mas criar simuladores de rebeldia e novos(velhos) forjadores de consciência crítica custa tempo e dinheiro ao estado brasileiro, é bom lembrarmos que o dinheiro, muito além de ser um meio de circulação, e específicamente o dinheiro do estado é obtido através de impostos(ou seja, este imposto é pago pela exploração dos trabalhadores da sua aula de sociologia I), ou seja mais-valia em circulação(este conceito novo, criativo, tesudo e revolucionário é meu).

Vejamos o exemplo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, universidade pública[5] que custa aos cofres públicos anualmente cerca de(lembremos: exploração e mais-valia acumulada) 525,7 milhões, dinheiro suficiente para construir 8.750 casas populares. Didáticamente o esquema funciona assim: os trabalhadores(os explorados da aula de sociologia I, isto cai na prova, anote) sustentam a universidade, que por sua vez vai gerar a elite intelectual do país.

Lembremos que segundo um pensador francês desconhecido citado pelo diploma de seu professor, esquematicamente a elite intelectual se divide em dois grupos: a) gestores de capital e b) gestores de trabalhadores e é óbvio que há aqueles que se enquadram nos dois grupos(como o governo do Pt por exemplo). Esta elite por sua vez, decide como o dinheiro do governo vai ser aplicado(entram em cena os gestores do capital) ou dizer como os trabalhadores devem se comportar frente à aplicação deste recurso(entram em cena os gestores de trabalhadores). Além disso, são eles que decidem como a casa vai ser construída, o que é o conceito de moradia segundo Foucault e Marx, a epistemologia do discurso dialético na composição arquitetônica da miséria, e por fim, quem realmente tem a culpa nisto tudo(o neo-liberalismo, o governo lula, mas jamais aponte o dedo para si mesmo!).

Felizmente, há gente mal instruída, lutando por terra, ocupando prédios abandonados, lutando por trabalho, enfrentando o estado e o capital, mas não se preocupe estudante! Você ainda pode assistir tudo de camarote, você paga meia-entrada!!!

Por Mr. Durden Poulain (que por um acaso infeliz do destino também é estudante universitário mas não vê a hora de sair desta condição pútrida e vil)

pseudocontos@gmail.com http://dedoscruzados.blogspot.com

[1] Se fracassar nesse aspecto tem em aberto algumas opções: dar aulas em escolas e universidades e formar outros universitários para reproduzirem o processo(os chamados psico-demagogos).

[2] Os gestores de capital são vulgarmente chamados de “capitalistas”.

[3] Os gestores de trabalhadores são vulgarmente chamados de “partidos políticos”.

[4]. Esquerdismo é “(...)o que é mais radical do que meu partido reformista consegue ser e aquilo que eu não consigo aparelhar...” ou segundo Lênin, uma doença de pele infanto-juvenil.

[5] Definição de Público segundo o Dicionário Ediouro da Língua Portuguesa: 1. Do ou relativo ao povo; 2. De uso comum. Evidentemente não se aplica de nenhuma forma ao caso citado.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Ex-pE(NTE)lh(ando) a alma do blog..


Estava pensando sobre este blog, sobre sua dinâmica, sobre como ele atua, especialmente em sua interioridade. Pensava sobre os posts, sobre a organização teórica e prática das pessoas que aqui se manifestam. É engraçado, os posts realmente parecem ser polimorfos, assuntos variados, formas variadas de escrita, até mesmo pensamentos diversos, entretanto, existe um nexo comum, eu diria até mesmo um desejo de estar-com.

Não sei se é exatamente dessa forma, uma comunidade de escritores, ou pseudo escritores. Não sei se posso chamar assim, mas me parece algo parecido. Não tanto uma escola, como brincamos uma vez, a escola de Isabelfurt: mais uma comunidade. Escolas normalmente exigem uma espécie de institucionalização: formação, instrução, e, normalmente, hierarquia. Não também uma comunidade qualquer, mas algo como um carnaval, como disse num antigo posto do blog. Certo é que esta fantasia carnavalesca é de todo minha, alguns talvez sejam mais sérios que eu, não que eu ache que ver tudo isso como fantasia carnavalesca não seja sério: ao contrário, é bem sério. Talvez uma palavra melhor que carnaval seja politeísmo.

É comum vermos dissidências neste espaço: remeto os leitores, p.ex., a longa discussão sobre H.Bey e Booktchin, e também mesmo a toda discussão atual sobre luta de classes, a qual preferi mani-festar-me apenas através de comentários. Flashes rápidos e leitores desatentos podem enganar-se ao ler este blog, isso pode ser visto mesmo no último post sobre luta de classes. Quando falo em meu comentário: “A luta de classes não existe” este é um enunciado de choque, da mesma forma que pode chocar a um militante de esquerda quando o Guerra critica da maneira tão aberta aspectos da luta de classes. De outro lado, quando o Mr.Durden se refere a capacidade política dos cidadãos a luz do anarquismo no seu post retoma a positividade das potencias políticas, vê as coisas através de um aspecto mais positivo, de um sentido mais próximo ao anarquismo histórico e organizado, ai, talvez, possa afastar pessoas interessadas apenas em diversão, pós-modernos e afins, aliás, não sou poucas as porradas neste grupo.

Alguns integrantes do blog, dentre os quais me incluo, estão organizando agora um pequeno jornal, chamado Colapso. Acho que o caminho deste jornal não tem como ser diferente. A pergunta persiste: por que se deveria ter atenção ao ler este blog, ao ler o futuro Colapso? Talvez porque é possível observar apenas as divergências e não ver o nexo comum que os autores aqui compartilham, ou, as vezes, tentam desesperadamente compartilhar. Nosso blog me parece estar entre uma linha de fogo, é possível que seja esse o preço pago por não se estar “nem aqui nem lá”. Por um lado sofremos criticas de nossa modernidade, estamos caducos, somos Senex (velhos), tradicionais, clássicos, ranzinzas: queremos salvar a luta de classes, salvar o comunismo (mesmo que o anarco-comunismo), queremos salvar o ideal revolucionário. Por outro, somos os pós-modernos, sob a sombra do Puer Aeternus (eterno adolescente). Estamos na linha de frente de um pensamento esquizofrênico, ou, pelo menos, esquizofreniforme, que perde suas raízes com as massas, um pensamentinho intelectualoide e bestoide, divertidinho, louco, que não tem nexo com a suposta realidade. Me parece que o blog, entendido como entidade, toca ambos os pontos sem se fixar em nenhum. Não me entendam mal, não existe aqui apenas um mito de unificação, mas também um Thanatos, um desejo ardente de separação...

Não quero ficar aqui como apologético, nem como crítico, mas devo ressaltar que em muito me agrada não apenas o caráter anti-autoritário, anti-estatal, revolucionário do blog, um caminho que não se limita a um aspecto econômico, social, mitológico, epistemológico, mas também sua estrada múltipla, de bifurcações das mais inusitadas, inesperadas, intempestivas, todo seu colorido anti-monoteista, que procura re-visar – como uma midrash judaica - as mais diversas frontes, nem que seja colocando uma nova vírgula onde havia um ponto final.

A este post, um tanto estranho, espero que sirva para abrir discussões sobre a própria dinâmica do blog, como um olhar no espelho, um olhar rápido, não aquele que se prende ao espelho, não um Narciso. Que ecoe, mas não como uma Eco. Acredito que o blog está em luta ainda, cria alguma luta, e fornece óculos e armas as mais variadas a diferentes estilos de atitude, luta, transformação. Seja numa organização, seja no próprio cotidiano: na faculdade, no trabalho, no estágio, na relação com o vizinho.

O post também não deixa de ser uma pergunta aos supostos leitores do blog, digo supostos porque não sei se de fato se este blog tem leitores, rs. Talvez a sua estranha interface ajude nesta des-leitorização... Sem um tema específico, sem um estilo de linguagem único, sem um Deus único aceito incondicionalmente... A pergunta fica: como vocês vêem isso tudo? Toda essa bagunça organizada? Como criar interfaces significativas para o novo milênio? Como, para que, e onde trans-formar – o mundo, as relações, o blog?

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Questão EEP

No presente texto abordarei questões relacionadas ao “nascimento do hospital” e aos seus pressupostos iniciais, mostrando de que forma esses pressupostos ajudam a compor algumas práticas de poder e, também, de que forma mecanismos de poder podem produzir: saberes, práticas, etc. Abordarei, brevemente, três dimensões que se fazem presentes em uma série de fenômenos sociais, relacionais, culturais e produzem comportamentos, instituições, etc. Essas três instâncias são: economia, epistemologia e poder disciplinar. O texto não está muito divertido, é verdade, mas acabei resolvendo publicá-lo devido ao longo tempo que eu estava sem escrever, e, logo, sem coragem para prosseguir em textos mais marcados estilísticamente, mais belos ou fluidos. Adentremos, pois, este mundo hospitalienar..


Hoje em dia é bastante fácil pensar nos determinantes econômicos de uma série de atos de poder, pipocam análises sociológicas que levam em consideração esses efeitos. Quem negaria as influencias econômicas colocadas, p.ex., na presidência de W.Bush, em toda guerra do Iraque, em toda disputa de poder entre as grandes empresas, desconsiderando qualquer humanidade, qualquer vida pessoal. Quem negaria as influencias econômicas em atos de poder como na dominação territorial, como na repressão a uma ocupação urbana, num assentamento?

Muito justo. Eu ainda ampliaria esse quadro, as influências econômicas atravessam uma série de fenômenos cotidianos, onde o “deus dinheiro” dificilmente é esquecido e, quando é, certamente mostra seu ciúme como um novo Iavé. Nessas análises, poderíamos lembrar que na invenção do hospital, enquanto modelo médico e não mais religioso ou filantrópico, ainda no século XVIII, uma das grandes questões, p.ex., na hospitalização inglesa era o tratamento do corpo do trabalhador para que este pudesse trabalhar de maneira mais produtiva (não seria o mesmo ideal que o modelo médico-assistencial privativista irá utilizar no Brasil depois de 1965?). Evidentemente podemos ampliar essas questões no âmbito do próprio hospital. No Brasil, a medicina do início do século XX até 1960, estava orientada por um modelo chamado de “Sanitarismo Campanhista” (Mendes, 1996). Esse modelo foi influenciado sobretudo pela economia agroexportadora da época, e utilizou sua “teoria dos germes” em ações que visavam a política de saneamento dos espaços de circulação das mercadorias e erradicação das doenças que poderiam prejudicar a exportação.

Voltaremos ainda a questões econômicas, mas me parece que o modelo econômico isoladamente, enquanto ente, não esgota a complexidade das questões colocadas: sejam de uma história moderna ou mesmo contemporânea. Por exemplo, temos que abrir margem a outras questões que atravessaram esse modelo sanitarista campanhista: era um modelo de inspiração militarista, um modelo repressivo de combate as doenças de massa. Epistemologicamente, ainda, era um modelo monocausal e sensitivista. Abrimos, portanto, mais dois leques de questão, um referente à questão do poder: um poder que não mais é composto apenas de negatividade, ou seja, não se dá apenas a partir da repressão, do recalque, do ocultamento, mas é um poder que cria, produz, o que Foucault irá chamar de “poder disciplinar” ou um poder composto de positividade, nas palavras do próprio: “É preciso parar de descrever os efeitos do poder em termos negativos: ele ‘exclui’, ele ‘reprime’, ‘ele recalca’, ele ‘censura’, ‘ele abstrai’, ele ‘mascara’, ele ‘esconde’. De fato, o poder produz; ele produz real, produz domínios de objetos e rituais de verdade”. Podemos lembrar, apenas em prol de uma ampliação do conceito e, logo, do entendimento, alguns âmbitos que esse poder disciplinar atua: na arte espacial dos indivíduos, o controle no desenvolvimento da ação e não no seu termino, vigilância perpétua e constante dos indivíduos (de preferência a partir de uma hierarquia, onde a própria população vigie a si mesma), registro contínuo.

Através dessa análise do poder, dessa genealogia, ao menos até certo ponto, podemos continuar cerceando a questão do nascimento do hospital. Não o nascimento do hospital enquanto materialidade, enquanto lugar, mas enquanto lugar de cura, de tratamento: o hospital, antes do século XVIII, especialmente antes de 1780, era como já dito, um lugar que de controle religioso: um lugar onde se morria. Havia no hospital uma cura, mas que se referenciava mais a uma cura espiritual, de passagem para a morte, uma espécie de salvação ritual. O hospital vai aparecer com a medicalização primeiramente nos ambientes militares e marítimos, a primeira intervenção medica seria intervir não de modo curativo, mas impedir que os focos de doença se espalhassem, evitando a desordem econômica ou da doença. Logo, se enclausurarão esses doentes e os distribuirão em espaços onde possam ser vigiados, sendo registrado o que acontece. Existem outras questões aqui, mas não nos alonguemos.

Importa pensar também a outra dimensão citada, ou seja, pensar de que modo também a epistemologia atravessa saberes, poderes, subjetividades e ajuda a compor constituições diversas. No século XVIII o principal modelo epistemológico, para a medicina, era o da botânica, o modelo classificatório de Lineu. Segundo Foucault: “Isto significa a exigência da doença ser entendida como um fenômeno natural”. E ainda mais, a psiquiatria em seu começo vai utilizar uma série de idéias da ciência clássica como: a neutralidade da ciência, a naturalidade do encontrado (ex: um sintoma), ou seja, a idéia de verdade natural, o homem é homem da Razão, etc. Algumas idéias que dão base a ciência agenciarão uma série de condutas e novos conceitos como o de: isolamento terapêutico, degeneração, alienação, doença mental, normalidade/anormalidade, terapêutica/cura. São idéias como essa que possibilitarão a emergência do manicômio. Segundo Paulo Amarante:

“Foi no contexto teórico das ciências naturais e do sensitivismo, inspirado tanto em Lineu e Buffon quanto em Locke e Condillac, que Phillipe Pinel produziu seu Traité médico-philosophique sur l´aliénation mental ou la manie, no qual apresentou o conceito de alienação mental e consolidou a prática sistemática do internamento da loucura. Embora o conceito de alienação não signifique ausência abstrata de razão, mas somente contradição na razão, como afirmava Hegel, essa contradição impossibilita a razão absoluta. Portanto, segundo Pinel, aquele em cuja razão existe tal contradição é um alienado, o que o torna incapaz de julgar e de escolher; incapaz mesmo de ser livre e cidadão, pois a liberdade e a cidadania implicam direito e possibilidade de escolha”.

Acredito que, embora longe de definir qualquer coisa, os exemplos mostrados possam abrir discussão sobre de que forma diferentes instancias do saber, do poder ou da prática modificam as relações e construções numa determinada sociedade. Talvez seja mesmo possível observar que essas instancias se interpenetram, se dialetizam, ou se multiplicam através de possíveis embates. Eu já havia observado em outro post algumas relações entre Epistemologia e Poder (cf. Epistemologia, Poder e Paranóia), agora acho que elas ficam ainda mais claras, assim como as relações entre Epistemologia e Economia, especialmente se lembrarmos do post sobre Trabalho e Loucura (cf. no blog). Ainda não adentrei numa questão que muito me interessa, que o Alexandre tem escrito sobre, através da questão da Luta de Classes, a questão da formação da subjetividade.

Parece-me, antes de tudo, que não podemos simplificá-la, é importante observar a complexidade do assunto, assim como a impossibilidade de uma explicação monocausal, na verdade, eu ousaria dizer, mesmo de uma explicação puramente causal. Quando falamos em subjetividade falamos sempre de algo que escapa, mas que ao mesmo tempo pode e deve ser colocada em jogo.
(imagem: família enferma de Lasar Segall, 1920)
Referências:
Foucault, M. Microfísica do poder, 2007.
Mendes, O Sistema Único de Saúde: um processo em construção. 1996.
Amarante. P. Sobre duas Proposições Relacionadas à Clinica e à Reforma Psiquiátrica, in Psicanálise e Psiquiatria: controvérsias e convergências. 2001.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Ainda sobre luta de classes e a questão do sujeito

No último texto, tratei das limitações da luta de classes a partir do prisma de análise do sujeito. Constatei a visão de curto alcance da esquerda em relação ao tema. Neste texto, quero tratar do outro lado da questão, o complemento necessário. O pessimismo absoluto é tão infantil quanto o otimismo absoluto. Convém afirmar, em primeiro lugar, que a reificação sob o capitalismo não pode nunca ser completa. Por mais que os conflitos sejam em sua maioria pautados por uma demanda de reconhecimento institucional (como no recente caso dos subúrbios parisienses) ou aconteçam sob o signo da necessidade econômica impingida na forma de luta por salários, melhores condições de trabalho etc, não existe identidade pura e simples entre o movimento e os seus objetivos imediatos. Em outras palavras, o movimento nunca É aquilo que aparenta ser. No fundo, o que é, é mais do que é. Isso não é um passe de mágica, mas dialética. Uma leitura antiidentitária implica em reconhecer que por baixo do real existe uma gama de possibilidades. A dialética não diz mais que isso - o fato de que o conceituado foge ao conceito. Pensar é classificar, dizia Adorno. No entanto, a realidade contraria o pensamento, transformando-se incessantemente sob o ritmo do Tempo. O classificado transborda a categoria que lhe impuseram, cria ramificações, se expande (pensemos na figura do Incrível Hulk rasgando suas roupas). Isso vale sobretudo para pensar os movimentos sociais e os conflitos no capitalismo contemporâneo. Existe ali sempre algo a dizer, algo que não foi visto ou previsto, uma potência adormecida, potentia como possibilidade.

Do ponto de vista teórico-abstrato, pode ser conveniente distinguir dois níveis fundamentais do conflito. O primeiro nível é o da luta em nome das necessidades - tais como elas foram nomeadas pelo sistema -, o da luta por melhores salários e condições de trabalho, terra, distribuição de renda, cidadania, reformas sociais etc. Este é o nível rasteiro dos conflitos. Do outro lado temos o nível mais perigoso de necessidades e desejos (sem romantismo) que não correspondem diretamente à organização social capitalista. Podemos falar de um conjunto de necessidades que não são facilmente ludibriadas pela sociedade de consumo e que escapam ao escopo do Estado e do mercado. São a autodeterminação e a comunidade. São os Zapatistas no México e os squats na Europa. São novas formas de relação social sendo gestadas no ventre da velha sociedade. Entre um pólo e outro existe uma ponte - incerta, estreita, sempre balançando ao vento. Mas essa distinção, como já disse antes, só é possível na teoria, do ponto de vista arbitrário de quem está sentado com a mão no queixo. A prática é muito mais complexa, comportando um sem fim de conexões e des-conexões, encontros e desencontros. Assim, uma luta sindical pela redução da jornada de trabalho pode vir a desaguar numa luta pela auto-atividade, numa luta anti-trabalho... e assim por diante. No calor do conflito, não há garantias. A explosão da subjetividade coletiva num protesto pode resultar em dias, meses (quiçá anos) de jornada revolucionária (citemos Oaxaca, por ex., ou os estudantes e trabalhadores/as franceses durante o mês de Maio de 1968...). Mas é preciso estar consciente de que, apesar dos pesares, a internalização da ordem existe e nós não estamos isentos das contradições da sociedade capitalista. Não existe mais espaço para uma teoria do Proletariado redentor, e acho que nisso todos nós concordamos.

O ponto de esperança reside, portanto, em "comer cenouras" e visualizar além da realidade imediata. Farejar as fraquezas do capitalismo deve ser o propósito de uma teoria crítica-revolucionária. As relações sociais não estão constituídas de uma vez por todas (é a reificação que nos faz enxergá-las deste modo). Elas estão sendo constituídas, quebradas e re-constituídas a todo instante, dentro do jogo social. O capitalismo nos contraria, dizendo que não, as relações sociais estão postas e acabou. Ele quer nos fazer acreditar que ele foi estabelecido uma vez lá atrás na história e que agora teremos que suportá-lo sem escapatória. Nós dizemos que não, que ele só existe a partir do momento em que acordamos debaixo do som irritante do despertador e nos dispomos a vender nossa força de trabalho, ou no caso dos estudantes, nos dispomos a deixarem outros trabalhadores/as nos formarem enquanto força de trabalho. O capital existe em função do trabalho, o patrão em função do empregado, o governante em função do governado. Se o governado se ergue em suas próprias pernas e se nega a ser governado, o governante deixa de existir, e ambos passam a se relacionar de forma livre. Mas a relação de autoridade é constituída de maneira tal que o governado acredita que existe em função do governante, e não o contrário. Aí é que mora o efeito trincado da dominação.

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É preciso também ter consciência do potencial de crise do capitalismo. Apesar de tudo, Kurz não é só um maluco com ânsia de ser o próximo profeta do fim do capitalismo. Alguns de seus apontamentos são bem lúcidos, como demonstrou o recente vacilo da economia norte-americana pelo viés do abalo do mercado imobiliário. Na sua corrida para provar os limites lógicos da acumulação capitalista, Kurz teve algumas boas sacadas. Há limites estruturais hoje que estão completamente esgarçados, e que só não explodiram por conta das artimanhas do capital (crédito, guerras de ordenamento, estado de sítio permanente). Kurz não é bobo. Ele não acredita em "superação automática" do capitalismo... pelo contrário, ele é ciente da merda que isso pode causar. Se estamos indo "com todo vapor ao colapso", é hora de pular fora, e não de colocar mais lenha na caldeira !!!!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Um natal feliz e um feliz natal....

Um natal feliz para os despejados, para todos os assassinados pelo Estado nas favelas, para os estudantes e as universidades sucateadas, para os presos políticos(todo preso dentro do sistema capitalista é um preso político), um feliz natal para os que moram na rua e se alimentam das sobras do excesso capitalista, para as crianças pedintes nos sinais e semáforos das grandes urbes, para os índios expropriados pela Aracruz Celulose, pelos moradores atacados pela violência do Estado no canal do Anil, para os atendidos nos hospitais caindo aos pedaços, para as empregadas agredidas pelos moradores classe média-alta, para os trabalhadores escravos no Pará, para os carregadores de carvão no interior do país, enfim, um feliz natal. Natal feliz? É sério?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Luta de Classes

Estou com preguiça de responder acadêmicamente-krisísticamente-frankfurtianamente o texto abaixo. Resolvi complementar imagéticamente a discussão(quando tiver faço minhas colocações adequadamente).

E a luta de classes? Existe ou não existe? De que forma? Século XXI não?


Metrô do rio de janeiro, 18h da tarde, quinta-feira.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Breve abordagem sobre o a questão do sujeito

"A humanidade teve de se submeter a terríveis provocações até que se formasse o o eu, o caráter idêntico, determinado e viril do homem, e toda infância ainda é de certa forma a repetição disso." (Max Horkheimer e Theodor Adorno, Dialética do Esclarecimento 1947)

Um aspecto que sempre foi caro ao escopo do socialismo tradicional é o da inevitável imanência da luta de classes e da suposta classe revolucionária. Basta evocarmos a leitura clássica: a classe trabalhadora é aprisionada externamente pelo capital, e ali permanece, alienada pela ideologia, até o momento em que, tomando consciência de sua opressão, se ergue e faz a revolução. Mas, tal como o trabalho não é capturado "de fora" pelo capital, mas é ele próprio um princípio imanente às relações sociais capitalistas, também a "classe trabalhadora" não pode ser encarada como uma classe realmente revolucionária. Não se trata somente de derrubar o mito marxista da predestinação, mas também de apontar aquilo que a esquerda sempre ignorou, a saber, que a emergência da modernidade (ou do capitalismo, se preferirem) traz em si a constituição de uma forma de subjetividade adequada às suas exigências. Essa problemática remete hoje principalmente ao grupo Krisis e à seus principais colaboradores (ou ex-colaboradores) - Robert Kurz, Norbert Trenkle, Roswitha Scholz. Muito antes, porém, este tipo de discussão já cabia nas bocas da Escola de Frankfurt e até do próprio Marx, se fizermos uma leitura seletiva. E pode-se dizer: a despeito de todo avanço na discussão teórica e na própria experiência, permanece ainda hoje na esquerda a crença incondicional na luta de classes. Esta encontra-se pra lá de arraigada, tanto nos partidos quanto nos sindicatos e demais grupos. Para esta fração, a classe trabalhadora possui uma predisposição quase-natural à Revolução (esta mesmo, com R maiúsculo). A única coisa que a impede de realizá-la é o fato de que sua ideologia é a ideologia da classe dominante. Os meios de comunicação de massa e de "formação" (escolas, universidades ou mesmo as igrejas) veiculam a ideologia burguesa sem cessar, de modo a domesticar os trabalhadores. A questão é que esse discurso não leva em conta a possibilidade (porque é de possibilidades que estamos tratando, e não de leituras absolutas) bem menos otimista da própria classe trabalhadora ser uma categoria imanente ao capitalismo, que tem suas necessidades e desejos "reais" produzidos pelo capital, e que por sua vez o reproduzem. Trata-se aqui da discussão sobre a forma-sujeito: à formação histórica do modo capitalista de produção corresponderia a formação histórica de uma subjetividade adequada e funcional, de uma individualidade massificada, carregada com dispositivos que garantem a reprodução das instituições burguesas. Não se trata de valores pensados. Como bem enuncia Jessé Souza em um dos seus textos, remetendo também a Bordieu, estes valores ou disposições fazem parte do âmbito pré-reflexivo. Estão internalizados ou "impressos" em nossos corpos desde a mais tenra infância - claro, levando em conta que o desenvolvimento da criança se dê no interior da sociabilidade moderna. Evidentemente, não existe nenhuma predisposição de ordem ontológica - ou "natureza humana", se preferirmos o jargão filosófico - que nos leve inevitavelmente às mazelas da concorrência generalizada, da acumulação, da guerra, do livre mercado, da troca, da propriedade privada etc. Não existe determinação genética, psicológica ou de qualquer outra ordem para o capitalismo. Isso nunca passou de ideologia rasteira, e convenhamos, não pode resistir minimamente a um estudo básico de história ou antropologia. A formação de um sujeito predisposto à concorrência e ao dispêndio de trabalho em abstrato é puramente histórica, socialmente estimulada produzida, e só foi possível depois de um longo processo de violência contra populações inteiras (Cf., por ex., o artigo do FernandoR. sobre trabalho e loucura neste blog).

Mas isso a esquerda não quer ver. Ela subestima o capitalismo ao classificá-lo como algo externo - a "propriedade privada dos meios de produção", a "burguesia"... -, enquanto o reproduz dentro de suas próprias organizações (os partidos, por exemplo, são regidos inteiramente por uma razão de cunho instrumental). Também por este meio, sua abordagem resvala sempre para um tom "esclarecido" - os ativistas e demais especialistas da revolução devem influir para conscientizar os trabalhadores. Isto porque ao identificar o capitalismo com um princípio externo - a propriedade privada -, e não como um "modus operandi" que rege o nosso dia-a-dia, ela tende mesmo a cair num tom esclarecido, levando ao pé da letra o papo de "crença nas instituições". E é isso o que acontece.

O problema da luta de classes, como o coloca algumas leituras pós-marxistas, é o de que a luta de classes constitui apenas um mecanismo regulador do sistema, um conflito de interesses imanente ao próprio capitalismo. Pois no fundo, "burgueses" e "proletários", empresários e vendedores da mercadoria força de trabalho, falam a mesma língua - a língua do dinheiro. A gramática, de ambos os lados, constitui um respaldo à formação social regida pela mercadoria. Como se vê, despindo-se daquela visão mistificadora, a contenda é muito mais por uma questão de mercado do que por uma suposta "vontade" de revolução de um lado e "vontade" consciente de opressão por outro. E deste ponto de vista, voltando novamente à discussão inicial, a história do movimento socialista mundial e das revoluções proletárias é a história do desenvolvimento descompassado do capitalismo nas diversas regiões do globo e da luta imanente por direitos e reconhecimento institucional dentro dos limites bem-comportados de Estado e mercado.

Sem querer abordar outros aspectos e problemáticos da luta de classes - pois isso daria provavelmente um livro -, seria preciso nos perguntar onde é que mora a esperança, a possibilidade de ruptura. A esperança, usando um pouco de Holloway aqui, mora no fato de que a constituição histórica do sujeito - como a constituição histórica da sociedade -, não está posta de uma vez por todas. Ela deve ser posta e re-posta a cada instante, pois a cada instante ela está sendo bombardeada por mil e uma falhas que persistem em seu tecido. As instituições são produzidas e reproduzidas na prática social, não subsistem por si mesmas. Com a crise objetiva dos fundamentos do capital, a auto-disciplina do homem ocidental vai perdendo cada vez mais o seu sentido. Os efeitos disso podem ser positivos como extremamente negativos. Somente um estudo mais aprofundado dos efeitos da implosão do trabalho pode avaliar verdadeiramente a situação de risco da humanidade... ou será do capital?