sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Difícil crer que a retórica stalinista ainda sobrevive, a despeito da enxurrada de revelações que se produziu durante e após a queda do regime pseudo-socialista soviético. Tudo que vai de encontro à opinião destas figuras é tachado de "imperialista", ideologia burguesa, "mentira ianque", blá blá blá. Assim também Theodor Adorno foi acusado de ser agente da CIA (!). Estratégia bem desonesta essa, que falsifica e inverte tudo. O stalinismo é ideológico no pior sentido do termo (naquele dado originalmente por Karl Marx) - é uma concepção invertida da realidade. Falar nos termos de um "crescimento econômico" superior, querendo demonstrar com isso o quanto os operários participavam positivamente dos faraônicos empreendimentos do Estado Soviético: é aí que o tiro sai pela culatra. A simetria nos termos da discussão (porcentagens, crescimento econômico, rendimento de trabalho etc) mostra o quanto que o socialismo do Leste Europeu se igualava ao Ocidente, inflado pelas mesmas instituições, pelo mesmo fetichismo da técnica (ou "razão instrumental"). Legitimando-se através de um discurso pró-operário e socialista, a burocracia soviética podia então impor e reproduzir as instituições básicas do capitalismo, a começar pelo Estado racionalmente conduzido. Mas isso os nossos stalinistas não querem ver. Eles têm maior gosto pela fenomenologia do discurso, que é a casa por excelência do espetáculo, do que pela análise concreta dos casos, de acordo com uma visão ampla das relações sociais. Como se a acumulação econômica e militar sem precedentes no antigo "bloco socialista" não denunciasse por si mesma a lógica que jazia ao desenvolvimento pós-revolucionário.

Importante lembrar que, para acobertar as contradições presentes (entre os proletarizados e o imenso aparato político-militar e econômico que se lhes opunha), o Estado Soviético utilizou largamente do nacionalismo e ideologias afins: todos eram chamados à "unidade nacional" para, em nome da Pátria Socialista, se sacrificarem. A ideologia protestante do trabalho foi outra que vingou desde o início, dando um tom quase mítico ao matadouro fabril. Mas nada disso interessa.

Mesmo quando querem dar um "ar fresco" ao marxismo, os stalinistas não se contêm. Alguns até, muito progressistas, afirmam que o antagonismo entre "proletariado" e "burguesia" teria acabado. Caberia agora encontrar um outro, ou melhor, "O" outro sujeito revolucionário. Os povos indígenas são uma das miras (acreditem, ele foi capaz de chegar a esta conclusão!!). Mas como e em que condições devem os povos indígenas se rebelarem? Para fundar um novo Estado, uma nova forma de opressão? Uma nova "classe dominante"? Então haverá opressores e oprimidos, como afirma o pequeno-burguês (sic) Bakunin, e a liberdade não estará garantida, tampouco a igualdade.

Não me interessa muito a discussão dos eventos do passado, a eterna rixa para ver quem é mais revolucionário. Porém, em caso de obtusidade e tagarelice programada, quebro o vidro. Não é nunca demais lembrar os crimes históricos do bolchevismo (e do stalinismo, que é nada mais que a sua decorrência lógica) contra as iniciativas autônomas dos/as trabalhadores/as. Os troskos, por sua vez, não fazem mais do que confirmar o caráter repressivo do marxismo tradicional. Com efeito, a essência do trotskismo é a ciumenta disputa pelo poder (basta ver como agem os partidos trotskistas no Brasil).

É possível fazer outra leitura do marxismo? Sim, acredito eu. E é mais do que necessário, nessa empreitada, contrariar os cânones do bolchevismo. Karl Korsch já denunciava no seu tempo a degeneração do marxismo em ciência burguesa, fragmentado-se em uma pá de gavetas disciplinares. John Holloway nos faz lembrar a importância da negatividade. Antes de tudo, é preciso ter a consciência de que o marxismo não passa de uma visão entre outras - ele não é "a" verdade, não é dono desta. É só a partir desta constatação, no entanto trivial aos que não se escondem atrás da máscara da arrogância, que podemos começar a nos mover.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Paranóia Social

Depois do último texto esvaziado de observações, que dá a impressão de sua infuncionabilidade proponho outro modus operandi: após o texto rechecado de história e opus citatum venho com um texto miserável, incerto, que nem eu sei se concordo, talvez assim eu fique cool, cult e seja reconhecido pela massa underground. Depois de tantos paradoxos, vamos ao que importa, ou exporta, qualquer coisa legível (?):

Falávamos sobre violência e, sim, também sobre pós-modernismos: além é claro da loucura clássica. Falemos, pois, da paranóia: desarranjo mental, loucura, délire, demência. ‘Para’ + ‘Noia’: pensamento paralelo, pensamento desligado, defeituoso, derouté, entgleist, fora dos trilhos. É importante considerarmos que a paranóia “é” uma desordem do pensamento, uma desordem mental paradigmática onde uma de suas características essenciais é o delírio. Delírios de grandeza ou megalomaníacos, de perseguição, de ciúmes, de referência, etc. A psiquiatria habitualmente define delírio como julgamento falso sobre a realidade sendo impermeável a qualquer averiguação lógica ou evidência dos sentidos.

Eu acrescentaria que a paranóia, ao ser uma desordem do significado, é literlizante. Dessa forma ao lidar com vozes, visões, percepções, sonhos, o paranóico concretiza e literaliza toda narrativa: é Deus quem fala comigo, tenho uma missão, sou eu quem salvará a humanidade dos inimigos, se trata de uma missão cósmica e estou recebendo comandos divinos. Se existe uma necessidade de contato com o feminino ele é literalizado como no onipresente caso Schreber onde ele precisava emascular-se, remover-se da categoria dos homens.

Mas, afinal, o que a paranóia em haver com a política, com o Socius? Ora, o Alexandre já lembrou a “paranóia” da direita, remetendo o topo da pirâmide da nossa sociedade a esquerda, uma esquerda diabólica e sinistra. Isso é uma típica atitude paranóica, de literalização e projeção da sombra, tal como a esquerda também o faz em movimento oposto, um exemplo típico são algumas muitas pessoas dentro do movimento político-musical. Esse tipo de movimento paranóico acaba por gerar atitudes graves e severos controles, sejam estes controles exercidos através de policias secretas, exército, vigilância eletrônica, mídia de massa, ditadura do proletário, medo de fraqueza, repressão dos movimentos sociais, das minorias, repressão do diferente, etc. Esse movimento de certo modo é um assassinato da alma.

Alma em latim é anima e Jung a associava ao feminino no homem, ao que há de desconhecido, a ligação com o inconsciente, etc. Acrescentemos a esse quadro que a anima tem uma ligação fundamental com a metáfora, com a sensibilidade, pluralidade, com o humor, a estética e a suavidade. Não é por menos que James Hillman falará: “É preciso fazer alma no mundo” retomando a antiga imagem neo-platônica de anima mundi. Aqui no blog temos associado a necessidade de conjunção, de ligação entre opostos como falamos com Eros, como falamos através de Hermes: conjunções diversas, criação de fluidez, Eros e Thanatos, Apolo e Dioniso, Narciso e Eco.

Se é preciso fazer alma no mundo é preciso desliteralizar os movimentos paranóicos, sejam estes estatais ou teológicos, científicos ou religiosos, muito embora muitas vezes ambos andem de mãos dadas. Schereber não foi capaz de superar a paranóia, pois se considerou liberto da dúvida e sua libertação o aprisionou, aprisionou-o na revelação, no delírio. A revelação se não puder ser cotidiana acaba gerando algumas complicações, pois a sua característica é obnubilar a consciência, isto é, diminuí-la, é o que chamamos de abaissement du nivau mental (abaixamento do nível mental). Toda revelação é um movimento afetivo intenso, dessa forma toma o foco da consciência para um único fenômeno, o que pode ter em si problemas ou desproblemas. Certo que existem pessoas que dizem que não ter uma obsessão é coisa do cidadão ordinário, no pior sentido da palavra. O problema talvez exista quando achamos que a única possível revelação se refere a nossa revelação, a que acontece para nós, esta mesmo que está em foco, isso impossibilita e turva a visão para a própria alma do mundo, a profundidade de cada fenômeno, a própria fala da cidade para conosco, brincando perto dos situacionistas.

Assumimos que muitas vezes mecanismos de defesa são utilizados: se para Bush o Iraque, o Afeganistão ou a Venezuela são o mal, estão traindo a ordem do capitalismo e da “democracia” (?) esse movimento acaba por direcionar a atenção a eventos externos, impedindo que a população possa olhar para os problemas do próprio pais, de sua própria cidade. Da mesma maneira ao errarmos, ao nos tornarmos mesmo esquerdistas, os próprios fascistas, tendemos inversamente ao grau de autoritarismo a acreditar que o que falamos se revela como verdade, como iluminação. Não se trata aqui de criar uma política anti-iluminação, anti-revelação, mas antes de entender as próprias revelações, as próprias iluminações como ficções, como piadas ou como ilusões heurísticas, quer dizer, ilusões que permitam movimentos benéficos para si ou para a coletividade que estamos inseridos. Um exemplo clássico de projeção de sombras era a situação bi-polar da guerra fria, que embora mascare movimentos idênticos, não deixou de deixar suas marcas dualistas óbvias: Deus e o Diabo se confrontavam no além humano do imaginário humano.

Esse ensaio é apenas uma abertura, não estou certo de onde ele exatamente pode nos levar, mas abro o assunto, caminhos tentando ampliá-los através das analogias míticas, históricas. Jaques Lacan irá dizer que a tarefa do analista é mais fazer o sujeito vacilar do que propriamente revelar-lhe significados, isso é uma questão contemporânea e de difícil conclusão. A certeza é uma condição da paranóia, mas também da psicose (saber "o real" aquilo que se mostra) falta da dúvida, ou mesmo a foraclusão do nome do pai (Lacan), isto é, ausência de desejo que seria provocada pela Falta¹. As teorias que se pretendem totalizantes, encontram ai uma problemática, incluindo o marxismo e talvez qualquer anarquismo que se proponha a um modelo universal e de economia única. É impossível um modelo organizacional para todos os anarquistas, é impossível uma única maneira de ação, isso só se tornaria possível através da explicação vertical do know how explicado por uma suposta elite intelectual... enfim, nem sei mais para onde ir..
¹ - Será que poderemos com James Hillman mostrar que a psicanálise é paranóica em relação a sexualidade e os junguianos em relação ao Self? Será que a sexualidade e o Self agem como se fossem um IHVH (Iavé) ciumento que não permite outro Deus?

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Manual do libertário PÚSmoderno


Manuais me assustam. São insosos, quadrados, sistematizados e ensinam-nos regras. Não odeio as regras em geral, odeio geralmente quem as ensina. Pó de giz acompanhado destas me dá sinusite. E sinusite me lembra remédios para o nariz, que me lembra a indústria farmacêutica, que me lembra o capitalismo, que me lembra os panfletos dos partidos trotskystas. Não, eu simplesmente não quero falar disto.

Se eu parar cinco minutos para sistematizar minha vida, tenho certeza que ela acaba. Tente fazer com a sua. A vida funciona bem é no caos. Tem lá seus problemas, seus efeitos colaterais(como descobrir que se está inscrito em História Antiga II três meses depois das aulas terem começado) mas em geral toda dicotomia vida x morte tem lá seu encanto. Sem dicotomias não existiriam filmes japoneses, times de futebol e toda a civilização ocidental. E sem humor não haveria o Maio de 68, as anedotas sobre Bakunin e boa parte do movimento anarquista(a parte boa... a boa parte...). Aliás como não perco a oportunidade de um bom mote(e motes devem sempre ser utilizados para justificar atitudes irresponsáveis, mesmo em manifestações individuais de auto-afirmação): "Se não posso dançar não é minha revolução." Boa leitura.

Alguns dizem que não há esse negócio de vida e morte. Que a morte faz parte da vida. E outros vão além. A própria morte é a vida. Viver é morrer(viveeeer.. e não ter a vergonha de ser feliz...). Morrer é viver. O Amor faz da vida um morrer amargo e lento, mas que horrorosa a vida de quem não vive morrendo(*).

Dizem também que a validade do conselho ou do discurso vale de onde vêm. É o que chamam de poder. O poder do discurso, sua legitimidade. Tente explicar isso para cinquenta straight-edges num show de hardcore crossover, simplesmente não funciona.

A partir disto, só vejo utilidade neste texto a partir do que ele ensina para mim. Não há autoridade acadêmica que resista a uma linguagem contra-cultural e autoridade contra-cultural(e há muitas, tantas quanto eu posso contar) que resista uma linguagem acadêmica. Isso é meio Stirneriano(ou outsider atualizando em linguagem modernosa). E quem não é que atire a primeira pedra.

Me sinto meio cristão. Lembro-me da parábola de Jesus: quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Um cara muito cristão era um tal de Nietzsche. Era tão cristão, que atirou pedras no cristianismo até sua morte. Ele nunca pecou. Que pena, não sabe o que perdeu.

Filósofos realmente são pessoas muito estranhas. Assista um seminário de filosofia às 08h da manhã e descobrirá porquê você ri das piadas contidas em Simpsons ou em South Park. As mônadas na conferência de Paris. Essa foi boa, melhor do que o bambu(se não conhece a história pare de ler o texto, você definitivamente não é um libertário PÚS-moderno).

Mas eu não estou aqui para falar de filosofia, nem poderia. Vim falar de técnicas corporais, e mentais para resolver o problema do cotidiano dentro da modernidade, esta nova e graciosa filha que o anarquismo resolveu namorar sob as asas do tio liberalismo. São técnicas que acabam com problemas típicos que o movimento anarquista enfrentou: organização, luta de classes, pedagogia libertária, bla bla bla, que papo chato...

Cult-way-of-life!! Go! Go!

Da história e origem dos manuais como estes

Um cidadão moderno, definitivamente não tem tempo para ler este tipo de coisa. Nada que demore mais do que dez segundos(o tempo de leitura de um panfleto onde lê-se vende-se ouro) ou uma viagem do metrô merece a atenção do libertário PÚSmoderno. Livros são caretas.

Dos objetivos do manual do cidadão PÚS-moderno

O objetivo é algo típico de uma sociedade teleológica como a nossa, finalista, objetivista e outros istas que podemos encontrar em nosso dicionário de ciências sociais para leigos, como tal, deve ser deixado de lado, junto com os profissionais de filologia e as tiradas batidas de Nietzsche em mesas de bar(estas são proibidas pelo manual do libertário PÚSmoderno).

Das edições passadas do Manual do libertário PÚSmoderno

Edições passadas não existem se não estiverem acompanhadas de sebos.

Do perfil do libertário PÚSmoderno

Sociedades de consumo avançado, produzem perfis diferentes. Não. Nós não vamos entrar numa discussão sobre marxismo agora. Isso definitivamente não está em pauta no momento. Seja PÚSmoderno. É mais fácil. Terá menos inimigos na academia(e terá muitos amigos caretas tenha certeza disto). O ponto positivo é que você JAMAIS receberá um panfleto de plebiscitos de campanhas insosas, no caso dos trotskystas, isso é muito, muito bom. Economizará papel. Há também o problema conceitual em cagar Foucault a cada cinquenta segundos nos corredores das universidades, esteja preparado para andar com um papel higiênico nos bolsos(não, você não pode falar em questões de ordem neste momento).

Da alimentação do libertário PÚSmoderno

Há dois tipos de alimentação que o guerrilheiro pós-moderno está submetido: a que faz mal e a que é você paga mais caro para que faça mal. Pastéis Heideggerianos, coxinhas Gramscinianas e quibes correlatos, devem ser evitados. Refrescos de caju, devem vir acompanhados de comentários sobre o último filme do Almodóvar.

Da linguagem utilizado pelo libertário PÚSmoderno

Evite jargões técnicos em público. Use-os em excesso no privado. Seja dualista nas mesas de bar, é como Kung Fu, Duro com os suaves e suave com os duros, traduzindo a nossa linguagem teórico e acadêmico com os populescos e populesco e prático com os acadêmicos. Use cerveja ou aforismas do Nietzsche se for preciso. Caso tenha crises de auto-consciência, utilize intensivamente jargões populares(esconderão o fato de você morar em áreas nobres da região), cante músicas populares em elevado tom de voz(isso esmaga totalmente os dissidentes; use funk se quiser ser duro, mpb se suave ou forró se preferir a indiferença), toque zabumba numa manifestação popular de turistas no centro da cidade ou frequente algum terreiro de umbanda branca.

Dos lugares que o libertário PÚSmoderno deve frequentar

Há muitos lugares cults onde você pode estar. Na verdade você podee deve estar em todos eles, essa prática de estar em tudo é algo imprescindível ao libertário PÚSmoderno; menos vendendo poesias em frente ao CCBB(gosta de poesia?). Isto é definitivamente proibido.

Das roupas e acessórios que o libertário PÚSmoderno deve usar

Óculos quadrados e com aros negros, devem vir definitivamente acompanhados de uma música do Echo and The Bunnymen e uma visita a uma ocupação de sem-teto(se o prazo da visita expirar, procure seus amigos anarco-ativistas para a renovação do visto).

Sapatos e tênis retrôs devem ser estimulados, isso dá um grande argumentode que você está preocupado com o avanço do capitalismo de estado chinês e talvez renda uma boa conversa sobre o boicote como arma de superação do capitalismo(ou de maneira efetiva de fazer sexo duas ou três vezes por mês).

Da leitura do libertário PÚSmoderno você-sabe-o-resto...

Leituras devem ser apenas citações, tudo acima disto deverá ser tratado estritamente, raivosamente como academicismo(expire a fumaça do seu cigarro de Bali em tom de indignação, soque a mesa e repita a-ca-de-mi-cis-mo entre os dentes, não se esqueça de agredir seu amigo de faculdade preferido com uma onomatopéia apropriada). Há livros especializados de aforismas. Sirva-se destes. O resto será definido pela subjetividade e pelas mesas de bar. É para isto que servem as revistas especializadas e outros libertários PÚSmoderno bêbados , lhe evitam o dispendioso esforço de perder cinquenta minutos lendo algum livro chato e tedioso.

Ignore esta regra dentro das salas de aulas do seu curso de relações internacionais ou sociologia.

Leia tudo que seu professor mandar.

Do capitalismo e das análises políticas

Serão sempre uma questão de estilo. Portanto, adapte-se à moda!

Da utilidade deste manual

Se o leitor riu de algumas piadas apresentadas e não se assumiu como libertário PÚSmoderno(...), definitivamente descobrimos uma maneira científica(tesconjuru pé-de-pato mangalô 3 vezes! E quem aqui falou de ciência? Nego até a morte!) de encontrar o libertário PÚSmoderno-(...).

Do autor

O autor se exime de qualquer responsabilidade sobre o conteúdo apresentado. Quaisquer semelhanças podem ser encontradas no cine Odeon, em Santa Teresa, ou no CCBB ou em espaços libertários em dias de chuva.

Das futuras edições e/ou atualizações

Virão. Em dias ímpares e ao som do novo cd do Radiohead. Afinal, a contradição faz parte da vida.

(*)
Amor Hace de La Vida
Um morrir amargo y lento
Más que horórosa la vida
de quién no vive muriendo
(Manuel González Prada - Grafitos)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Trabalho e Loucura


Um estudo sobre a loucura do trabalho e do trabalho da loucura.

Introdução:

Pretendemos com este pequeno texto abordar de maneira introdutória as relações entre trabalho e loucura, isto é, as múltiplas maneiras dentre as quais estes se relacionaram dentro de um período histórico. Podemos começar dizendo que, pelo menos até o século XVIII, havia uma política institucionalizada da internação de ociosos, vagabundos e mendigos. Internação “justificada”, na medida em que a loucura até então não encontrava plena ligação com a prática médica que, por mais que tenha surgido com o positivismo, ainda permanecia, ao menos no âmbito da psiquiatria, muito ligada a pensamentos místicos, políticos, religiosos ou de influencia imaginária. Portanto, os grandes asilos não eram feitos especialmente aos “loucos”, isto é, aos hoje chamados de loucos, mas o conceito de loucura da época era de tal forma genérico e impreciso que podia abranger toda sorte de sortilégios sociais. Um homem, por exemplo, foi preso no século XVII por não ficar de pé na igreja nas horas corretas. Os mendigos eram presos junto com os vagabundos, os pervertidos, os loucos, etc. “O internamento seria assim a eliminação espontânea dos ‘a-sociais’” (Foucault, 79).

Os donos do asilos durante o século XVII e XVIII eram religiosos de alta conta ou muitas vezes burgueses, especialmente depois que a revolução positivista foi se apropriando do poder de forma mais nítida. Dessa forma o poder burguês ou do clero utilizava-se dos asilos para manter tanto a ordem social, evitando revoltas, tal como para escamotear a fealdade social, e manter a tão “em voga” ordem, razão e harmonia social. E ainda a “loucura”:

Ignorada há séculos, ou pelo menos mal conhecida, a era clássica teria começado a apreendê-la de modo obscuro como desorganização da família, desordem social, perigo para o Estado. E aos poucos esta primeira preocupação se teria organizado, e finalmente aperfeiçoado, numa consciência médica que teria formalizado como doença da natureza aquilo que até então era reconhecido apenas como mal-estar na sociedade (op. cit, 80).

Dessa forma criou-se, através de subterfúgios diversos, uma visão de loucura ampla, conceito tão mal definido que a medida de sua ampliação era a medida de sua indefinição. Todos os a-sociais eram loucos. A partir daí pensou-se em muitas punições e “tratamentos” para esses indivíduos mal vistos e firmemente repudiados a partir da era clássica onde eles perdiam seus entornos míticos, ou talvez, ganhassem uma nova mitologia.

Do trabalho da loucura

Até a Renascença a loucura era percebida em um aspecto transcendente e imaginário, aspecto este que dava conta de suportá-la, pois lá ela era atribuída de sentido. O mundo da Renascença era o mundo ainda povoado de multiplicidades o que viria a mudar na época clássica. Segundo Foucault:

O ‘Cosmos’ da Renascença, tão rico em comunicação e simbolismos internos, dominado inteiramente pela presença cruzada dos astros, desapareceu, sem que a ‘natureza tenha encontrado sua condição de universalidade, sem que acolha o reconhecimento lírico do homem e o conduza no ritimo de suas estações. O que os clássicos retem do ‘mundo’, o que já pressentem ‘natureza’, é uma lei extremamente abstrata, que no entanto constitui a oposição mais viva e mais concreta, a do dia e da noite. Não é a época fatal dos planetas, não é ainda a época lírica das estações; é o tempo universal, mas absolutamente dividido, da claridade e das trevas. (Op cit., 244-245)

Com o advento da era clássica a famosa dualidade retoma seu campo. Luz e escuridão, noite e dia, bom e mau, certo e errado, verdadeiro ou falso. A era clássica, por mais que não possa ser resumida a isto, torna seu caráter maniqueísta explicito. Essa era passa a julgar de maneira muito mais moralizada os sujeitos de sua história, rejeitando os inúteis sociais, isto é, aqueles aos quais não faziam parte da grande comunidade do Trabalho. É aí, portanto, que a loucura começa a sua demarcação que caminha para a contemporaneidade, na era clássica aparece finalmente o conceito de “desatino” que servirá para marcar este lugar, o lugar do louco, do mendigo, daquele que não trabalha e foge dos padrões morais desta sociedade trabalhista, afinal, “qualquer trabalho é melhor do que nenhum”. Dessa forma é justamente:

“nesse outro mundo, delimitado pelos poderes sagrados do labor, que a loucura vai adquirir esse estatuto que lhe reconhecemos. Se existe na loucura clássica alguma coisa que fala de outro lugar e de outra coisa, não é porque o louco vem de um outro céu, o do insano, ostentando seus signos. É porque atravessa por conta própria as fronteiras da ordem burguesa, alienando-se fora dos limites sacros de sua ética”. (op. cit, p.73).

É esse o tempo da ética protestante que toma de assalto o mundo da transcendência e torna-se aos poucos transcendente por si só. Nesse tempo Calvino poderá dizer: “Não tentarás o Eterno, teu Senhor”, e pergunta: “Não querer trabalhar, não é ‘pôr à prova o poder de Deus’?” (Calvino apud Foucault, p.72). O Hospital Geral na França passa por ter a função de impedir a mendicância e a ociosidade, fontes poderosas do mal. Sobre a irradiação do Trabalho como a grande Opus de Deus estão os asilos, que tomarão uma forma de impedimento, não permitindo que os não trabalhadores sejam aceitos pela comunidade e, é justamente:

“nesses lugares da ociosidade maldita e condenada, nesse espaço inventado por uma sociedade que decifrava na lei do trabalho uma transcendência ética, que a loucura vai aparecer e rapidamente desenvolver-se ao ponto de anexá-los” (op. cit: p.73).

É neste local que a loucura toma a antiga posição dos leprosários, lugar onde se alojavam os miseráveis, vagabundos e desempregados, em suma, o mal sócio-espiritual manifestado. De que forma se daria, portanto, uma solução a toda essa espécie de desvairados? Somente através do trabalho obrigatório, com certeza, mas não o mero trabalho, pois ali não existe dissolução entre aspectos econômicos e morais, o objetivo se coloca também como forma de punição até se tornarem mais visíveis as técnicas do “despertar” que serão muito utilizadas no final do século XVIII e no século XIX. Dessa forma podemos observar o hospício além da retenção de subversivos e desatinados:

Mas fora os períodos de crise, o internamento adquire um outro sentido. Sua função de repressão vê-se atribuída de uma nova utilidade. Não se trata mais de prender os sem trabalho, mas de dar trabalho aos que foram presos, fazendo-os servir com isso a prosperidade de todos. A alternativa é clara: mão de obra barata nos tempos de pleno desemprego e de altos salários, e em períodos de desemprego, reabsorção dos ociosos e proteção social contra agitação e revoltas” (op. cit, p. 67).

É ainda nos regulamentos do Hospital Geral que vemos de que forma essa autoridade em forma jurídica se dava em relação à punição (explicitando bem a postura não médica, mas jurídica da internação), segundo este regulamento os diretores do hospital: “Têm todo o poder de autoridade, de direção, de administração, de polícia, jurisdição, correção e punição” (op. cit, 74).

A política então será de internação, de não aceitação dos loucos no espaço social dos burgos, mas estes não-seres deveriam ser colocados num espaço a margem, no hospício. A lógica do hospício, de retenção dos indivíduos que causam perigo ao Estado a lógica mercantil burguesa e a moral judaico-cristã, será mantida por muito tempo. No Brasil, por exemplo, iremos encontrar gigantescas colônias que serviam-se também do trabalho como forma de gerar capital e como forma de tratamento moral.

“Considerando a extensão do Brasil, assistimos a uma proliferação de macrocolônias de alienados por todos os cantos do território nacional, quase todas criadas pelos psiquiatras Juliano Moreira e Adauto Botelho, diretores nacionais de assistência psiquiátrica entre 1910 e 1930, e 1930 e 1940, respectivamente. Em quase todos os estados existem ou existiram manicômios com o nome de um ou de outro, quando não de ambos. A colônia do Juqueri, em São Paulo, foi a maior de todas, chegando a abrigar 16 mil internos” (Amarante).

Aqui já fica evidente que essa política chegou pelo menos até a metade do século XX, onde só foi diminuir após os movimentos anti-manicomiais começados com Basaglia e com os movimentos dos trabalhadores de saúde mental como aconteceu no Brasil. A nova ótica poderia atacar diretamente os mecanismos de exclusão e da instituição total que se criaram, modelos totalitários que seguiam muito a lógica mecânica e anti-individualizante de um grande período da ascensão industrial. Dentro dessa lógica, vimos a violência, os maus tratos e a humilhação das pessoas transformadas em entes e especialmente a naturalização da doença. O que eram espíritos maus que invadiam os acometidos passava a ser doença, o que não deixou suas bases projetivas. A separação sujeito-objeto, se é que houve de fato nesta época, foi muito mais conceitual do que factual.

Ainda no Brasil, Rodrigues Caldas, diretor da colônia Juliano Moreira em 1920, em seu discurso inaugural disse estar pronto para lidar com: "os delicados problemas atuais de higiene e defesa social pertinentes aos deveres do Estado para com os tarados e desvalidados de fortuna, do espírito ou do caráter, para com os ébrios, loucos e menores retardados, ou deliquentes abandonados, assim como para com os indesejáveis inimigos da ordem e do bem público, alucinados pelo delírio vermelho e fanático das sanguinárias e perigosíssimas doutrinas anarquistas ou comunistas".

Aqui temos uma união bombástica, que durou grandes períodos, presos políticos eram misturados com os delinqüentes, os considerados inválidos, os de comportamento aconvencional, os pobres, “loucos”. Todos eram, de fato, uma preocupação do Estado e da ordem burguesa.

Talvez aqui podemos lembrar da origem etimológica de trabalho:

Nos países de língua germânica, a palavra “Arbeit" significa trabalho árduo de uma criança órfã e, por isso, serva. No latim, “laborare” significava algo como o ‘balançar do corpo sob uma carga pesada’, e em geral é usado para designar o sofrimento e o mau trato do escravo. As palavras românicas ‘travail’, ‘trabajo’ etc. derivam-se do latim, ‘tripalium’, uma espécie de canga utilizada para a tortura e o castigo de escravos e outros não livres. A expressão idiomática alemã – ‘canga do trabalho’ (‘Joch der Arbeit’) – ainda faz lembrar este sentido (Krisis, 45-46).
Falar de violência, e talvez mais ainda de criminalidade, é complicado. Isso é algo que a esquerda no Brasil não quer reconhecer, e... a população em geral. Quando se põe o assunto em pauta, existe já uma certa resposta "pronta": a criminalidade é fruto da desigualdade social, falta de oportunidades, de alternativas etc. É assim que os clichês sociólogicos se reproduzem em larga escala na opinião pública. Toda vez que o telejornal resolve fazer um complemento da notícia, ou então "discutir" o problema da criminalidade, lá vem a figura do sociólogo. Este lança na boca do povo o novo "refrão" da academia: invisibilidade social, sociedade de consumo etc. Tudo isso é interessante de ser pensado, e claro, não quero bancar o arrogante e dizer que isso não contribui para a questão. O problema é que muito disso é absorvido a-criticamente, e como de praxe, os nossos papaguaios saem por aí, nos bate-papos da vida, prontos para colocar a agulha no vinil. Aí, pronto: os conceitos se transformam em barulho de fundo. A preguiça intelectual os produziu deste jeito, e eles devem, por sua vez, fortalecê-la. Não tiro razão de certos liberais, por exemplo, quando vêm nos questionar sobre as causas da criminalidade: ora, sem a causa principal da criminalidade é a desigualdade social produzida pelo capitalismo, como explicar que, num país pobre como a Índia, e cheio de desnivelamentos devido ao sistema de castas, haja um índice muito menor de violência que no Brasil? Ou sei lá... existem vários outros exemplos.

A criminalidade e a violência são fatos complexos. O que acontece é que, desde há muito tempo, a esquerda padece de um mal - a preguiça intelectual. Ser de esquerda hoje já não significa ser um "opositor". Ser um "opositor" na política, ou anti-politicamente no caso do anarquismo, seria fazer parte de uma minoria insatisfeita. Mas, ora bolas, desde quando a esquerda é minoria? É só contar a partir do momento em que Che Guevara virou um ícone pop, Marx uma referência na academia e que Lula foi eleito presidente da República. Sem contar a (hoje) ampla difusão do marxismo e do anarquismo nas livrarias, a produção de filmes baseados em temática esquerdista (Os Sonhadores...) e por aí vai. Parece que, na louca intuição da nossa direita paranóica, existe um fundo de verdade: os esquerdistas dominam hoje a vida pública, ao ponto de ser feio e politicamente incorreto declarar-se de direita. É só reparar - quando se indaga, ninguém diz que é de direita. No pior dos casos, é um direitista enrustido (eu tenho um exemplo aqui bem perto! hehe). Parece que a direita foi achincalhada juntamente com seus valores - e eu estaria sendo irrealista se não dissesse que, no entanto, estes valores encontram ainda muita adesão entre as camadas baixas, principalmente. Achincalhada pela esquerda, que finalmente, depois de muito tempo escondida no movimento estudantil, gestando-se entre os hippongas universitários do marxismo-leninismo, entre uma baforada e outra de cannabis, agora põe sua cara a tapa no poder. E, claro, estaria sendo mais irrealista ainda se não dissesse que essa esquerda, agora no poder, faz um governo voltado para as elites (inclusive para si mesma, como nos tem provado os repetitivos escândalos) com "salpicadas" de populismo. E põe "salpicadas" nisso. Na ótica do burguês maré-braba, pode até parecer que, de fato, se trata de um governo de esquerda, pois nunca se viu tanto a atenção do Estado, e dos poderes do Estado, voltada para o povão, privilegiado com mil e um programas de assistência populis... digo, social (ou seria "miséria assistida"?).

Pois este contexto político é muito diferente do que tínhamos no século XIX. Lá atrás, ser de esquerda (anarquista, comunista ou social-democrata) dava cadeia, e provavelmente não era "bonito", nem para a burguesia nem para a classe média. Os padres, como tinham algum monópolio da educação, faziam questão de falar besteira sobre os comunistas e anarquistas, para que os jovens (e os fiéis) ficassem bem longe deles. Ao contrário, hoje soa até "humanista" você se declarar de esquerda. Quem é de direita é insensível. Ora, com uma inversão destas, acaba a necessidade de pensar. O pensamento é fruto da inquietude, dizia o filósofo. Para quem está gozando de certo privilégio, não precisa se incomodar. Talvez por isso a agitação da direita em certos países da Europa (Le Pen etc).

Parece que existe também uma certa tendência dos partidários da esquerda em fazer abstração da conjuntura. O pessoal fica tão entusiasmado com esse negócio de Revolução que acaba ficando otimista demais, como se a famigerada estivesse logo ali, ao nosso alcance. Mas, "tipo assim"... e a conjuntura? Como é que vai a "classe revolucionária"? Contrariando todas as expectativas. "Como é que tá essa força?". Força?? Que força? Nosso partido/grupo tem apenas 5 membros fixos. É assim que andamos. Talvez por isso eu ache Adorno tão interessante: seu ponto de partida, segundo ele mesmo, seria o momento em que a filosofia, "que outrora parecia superada, mantém-se viva porque o momento de sua realização foi perdido". A esquerda também sempre foi tarada pela prática, inegavelmente. O pensamento sempre lhe pareceu tarefa pouco-nobre, coisa de "pequeno-burguês". Certamente, mais nobre seria dedicar oito ou doze horas do seu dia, trancafiado num lugar quente e feio de doer, fabricando sapatos!! Depois de uma jornada dessas, do "trabalhador forte e fecundo" da Internacional só sobra o bestializado, franzino e infeliz trabalhador. "O trabalho forma" foi uma das maiores mentiras que a esquerda jamais acreditou. E, agora que a teoria caiu em descrédito, sobra o "oba-oba" do ativismo ou pragmatismo da revolução brecada.

Bom, eu desviei enormemente o assunto, mas isso tudo era para dissecar uma esquerda que há muito tempo desaprendeu a pensar. O assunto inicial era a criminalidade, mas, como não gosto de censurar, deixei a coisa ir. Um texto sobre criminalidade e violência vai sair ainda. Fiquem no aguardo. rs

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Curso de Extensão "ANARQUISMO SOCIAL"

CURSO GRATUITO

LOCAL:
Auditório - Bloco O, do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia (ICHF),
que fica no Campus do Gragoatá (entrada próximo à Praça da Cantareira -
bairro São Domingos), Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói - RJ

Para se inscrever: oficinaspronex@gmail.com

Tel.: (21) 2629-2949

Qual é a proposta do Curso de Extensão "ANARQUISMO SOCIAL"?

Desde 2002 (ano de criação do GEA - Grupo de Estudos do Anarquismo), os nossos debates sobre anarquismo vêm se articulando muito mais com a construção política e social das propostas libertárias (históricas e atuais) do que com aspectos mais isolados ou subjetivos, que podem estar ligados ao tema. Este curso, então, pretende proporcionar aos(às) participantes um conjunto substancial de exposições e reflexões para o entendimento das propostas anarquistas realizadas ao longo tempo (desde a metade do século XIX até os dias de hoje) em diversos lugares do mundo. As propostas anarquistas - distantes das formulações "utópicas" ou apenas
teóricas e filosóficas, destacaram-se na formação de instâncias de luta contra a exploração movida pelas classes burguesas e capitalistas e contra o reformismo e a burocracia do Estado; na participação em revoluções populares; e na construção de estruturas sociais antiautoritárias, democráticas e autogestionárias. Por conta da imposição do Estado e do peso do arsenal autoritário sobre as sociedades, para a maioria das pessoas o anarquismo não se encontra nas páginas da História. Portanto, o curso de extensão é um ótimo momento para a aquisição de conhecimento deste universo "novo".

O projeto Curso de Extensão: Anarquismo Social conta com o apoio do PRONEX (FAPERJ / CNPQ), coordenado pelo Prof. Daniel Aarão Reis Filho.

Programação:

10 DE NOVEMBRO
8h - 12h
TEMA: Proudhon, Bakunin e Malatesta
Palestrantes: Alexandre Ribeiro Samis(1) e Felipe Corrêa(2)
(1) Doutor em História pela UFF e Professor de História do Colégio Pedro
II;
(2) Editor e Pós-graduado em Ciências Sociais pela ESP-SP;

14h - 18h
TEMA: Anarquismo e as Revoluções Russa e Espanhola
Palestrantes: Robledo Mendes(3) e Milton Lopes(4)
(3) Graduado em Agronomia pela UFRRJ e Professor de Biologia da Rede de
Ensino Particular da Baixada Fluminense;
(4) Jornalista e membro do Núcleo de Pesquisas Marques da Costa (NPMC -
Federação Anarquista do Rio de Janeiro / FARJ);

24 DE NOVEMBRO
8h - 12h
TEMA: Ricardo Flores Magón e a Revolução Mexicana
Palestrante: Alexandre Ribeiro Samis

14h - 18h
TEMA: História do Anarquismo no Brasil
Palestrante: Carlos Augusto Addor(5)
(5)Professor Adjunto do Departamento de História da UFF;

08 DE DEZEMBRO
8h - 12h
TEMA: Anarquismo Hoje: Contracultura ou Inserção Social
Palestrantes: Rafael Borges Deminicis(6), João Hernrique Oliveira(7) e
Rafael Viana(8)
(6) Graduado em História pela UFF e Mestando em Sociologia Política pela
UENF;
(7) Graduado em Jornalismo pela UFF e Mestre em História pela UFF;
(8) Graduando em História pela UFRJ;

Sobre o GEA:

O Grupo se reúne mensalmente, na sala 216 / Bloco N (sala do NEC), UFF-Niterói, Campus do Gragoatá (Referência: ao chegar na Praça da Cantareira, bairro São Domingos, procurar pela entrada do Campus do Gragoatá e perguntar pelo ICHF – Instituto de Ciências Humanas e
Filosofia).

Porém, nestes últimos meses o grupo tem se reunido também na sala do > Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro (AMORJ) que fica no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), da UFRJ, no Largo do São Francisco, Centro, Rio de Janeiro – RJ, às 17 hs.

Os textos do Grupo estão dispostos na pasta 666, Xerox, Bloco N, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia (ICHF) – loja do Marcelo - UFF.
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Contatos:

http://www.geauff.blogspot.com/
e-mail: gea_nec2@yahoo.com.br
Tels.: (21) 2629-2949 ou (21) 9791-8426 (Coordenador do grupo: João
Henrique)

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terça-feira, 25 de setembro de 2007

pensamentos

No Brasil, ninguém tem propriedade para falar da violência. Nem o vulgo nem o douto se mostram aptos a um tal ofício. De certa forma, tivemos nossas licenças cassadas pelo estado calamitoso - para não dizer apocalíptico - em que vivemos. Imersos em tal situação, vamos ficando cada vez mais insensíveis, petrificados, e isso se reflete na extinção do pensamento crítico, no soterramento de todo impulso libertário, e por aí vai, até o ponto em que nos tornamos fascistas em potencial. Fica até difícil falar de um assunto tão delicado. Toda cautela é pouca. Pressentimos que toda tentativa de falar de forma honesta pode incorrer na hipocrisia. Quais são os sentimentos e intenções em jogo? Como evitar o egocentrismo, o exibicionismo? Como tornar mais autêntica a expressão... ou menos inautêntica?
Qualquer manifestação além do mero mal-estar subjetivo parece ser luxo perto da merda que vemos todo dia. E ainda, qual seria o valor da arte (e já se perguntavam isso os dadaístas em meados do século XX) frente à barbárie? A arte se justificaria ainda, a despeito da patente ausência do Belo? Como ouvir uma bela sinfonia se o som de fundo permanece sendo o de gritos de horror?

Qual o combustível da arte hoje em dia? Qual a sua motivação? Seria a positividade? Encher o mundo daquilo que ele não tem? É preciso indagar qual o sentido de pintar lagos cristalinos quando eles se tornaram uma espécie em extinção, subsistindo a não ser em nossos inventários. Daqui a pouco esqueceremos a imagem (autêntica) do mundo. Perderemos a noção de verdadeiro, que segundo Debord seria já um apêndice do falso, um "momento" deste. Na propaganda e no cinema, nas novelas e revistas de moda, encontramos um mundo completamente outro, cheio de luz. Mas onde está a semelhança?? Mesmo quando se retrata a guerra ou a miséria, isto nada remedia. A patética dramaticidade, ingrediente indispensável para o sucesso comercial, é aplicada em dose calculadamente exagerada. De repente, num passe de mágica, até a merda da guerra vira uma bela obra cinematográfica. É preciso abrir os olhos para aquilo que Adorno chamou "Indústria Cultural" (ou "o Iluminismo como mistificação das massas"). Para Adorno, até onde sei, o último traço de resistência num mundo subsumido pelo capital estaria na arte. A arte teria a função de expressar a negatividade, o "não-idêntico", de alimentar o descontentamento.

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As discussões recentes em torno do filme "Tropa de Elite" (que eu ainda não vi) mostram o quanto estamos próximos do fascismo, ou o quanto a população é capaz de se identificar com o tal "Capitão Nascimento", de vibrar a cada tiro que ele desfere, a cada pontapé na cara do bandido. João Paulo Cuenca escreveu sobre como a sessão de pré-estréia se tornou um ritual de descarrego: o público, num "frisson de adrenalina", aplaudindo de pé a truculência dos "mocinhos". Há quem diga que o próprio filme faz do personagem (um torturador) um herói... não posso dizer nada pois ainda não o vi.

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Denúncia: a violência está a tal ponto integrada ao nosso cotidiano que daqui a pouco será difícil distingui-la da paisagem. Quem sabe logo chegue o dia em que não mais constará nas páginas dos jornais, pois que de tão corriqueiro, deixou de merecer o seu espaço entre as notícias. Mas não falo só da violência direta, perceptível, da troca de tiros e das excursões da polícia nas favelas, do Caveirão etc. Falo da violência de um modo geral, da degradação das relações humanas, da insensibilidade e indiferença generalizadas. Falo dos cortadores de cana no Nordeste assim como dos executivos de São Paulo. Falo do trânsito e dos desaforos-que-não-são-levados-para-casa. Falo do racismo e do sexismo. Do assassínio da personalidade humana pelo processo de conformação ao trabalho - processo este que todos nós estamos inseridos, sejamos meros "estudantes" ou não. Falo da imprevidência da classe média, do discurso intolerante do plebeu. Do ódio compartilhado das torcidas de futebol. Falo dos jornais. Sim, pois a imprensa apenas aparentemente presta um serviço à sociedade: a médio ou longo prazo, compromete os sentidos, e assim vamos sendo esvaziados. Com efeito, não podemos mais nos pretender "puros", ou pretender a existência de um "sujeito revolucionário" puro. É uma ingenuidade muito grande. Como se, imersos nos mecanismos viciados do sistema, pudéssemos estar isentos de suas contradições. É aqui que o mito da "pureza ideológica" se arrebenta violentamente contra o muro da economia globalizada. Se todas as ações estão imbricadas (a nível mundial), não tem mais como escapar das garras do pecado. Ir no cinema pode ser tão criminoso quanto servir os EUA no Iraque. O dinheiro passa de uma mão a outra, e o (hoje colossal) edifício da divisão social do trabalho contribui mais do que nunca para a completa alienação do indivíduo.

Pois acertou quem disse que o Brasil é a "fratura (exposta) do mundo". Como se sabe, a essência do capitalismo é a violência. Se um dos marcos históricos da modernização foi a expropriação das terras comunais na Inglaterra em proveito da criação de lã para a indústria têxtil, o Capital continua sendo, todavia, um "processo-forma", um "processo de formação das relações sociais" (Holloway). Seria um processo de separar o fazer do feito, os trabalhadores dos seus meios de vida, o trabalho manual do intelectual e assim por diante. Um processo contínuo de privação, de cercar e delimitar, de des-socialização das pessoas.
E onde residiria a esperança? Para encontrá-la temos que olhar a coisa do ponto de vista do "não-idêntico", isto é, daquilo que, embora existindo sob a sombra do capital, contraria secretamente a sua lógica. Holloway explica que o capitalismo não "é": ele não "foi" um dia no século XVIII e agora, infelizmente, teríamos que suportá-lo "até que", num belo dia, haja a revolução. O processo (violento) de imposição do capitalismo gera um contra-processo, o impulso pela autodeterminação social. Se o capitalismo é a negação de nossa dignidade, de nossa humanidade, não temos outra escolha a não ser erigir barricadas (subjetivas) e declarar guerra.

Nós somos o "sentido consistente da não-identidade", "negação da negação": à negação de nossas vidas, respondemos com um Não ressonante. O ponto de esperança reside em que o capital não é uma coisa, e sim uma relação social. Ele só existe a partir do momento em que o fazer humano é conformado ao trabalho abstrato, produtor de mercadorias, separado no tempo e no espaço das demais atividades. Se a conformação falhar, se os trabalhadores se rebelarem contra a contenção da sua atividade, a existência do capital está sofrendo sério risco. A subversão do trabalho em um fazer criativo, livre, autodeterminado e sobretudo sensível às necessidades, subversão que só pode vir de dentro, é o segredo da transformação social. Criar outras formas de relacionamento social amplo para além do dinheiro e da mercadoria constitui a idéia-chave do anticapitalismo. E isso pode ser alcançado de várias maneiras, pois o próprio mundo que nos espera seria um mundo plural.

Resta saber se ainda tem volta. Não podemos mais ter certeza de nada. Será que depois de tanta merda, da bomba atômica e das duas grandes guerras e do 11 de Setembro haveria ainda espaço para sonhar? O peso da violência é tão grande que é capaz de suprimir todo impulso libertador nas pessoas. E assim caminha a humanidade, pendendo cada vez mais para o fascismo, para os fundamentalismos (religiosos ou não) e nacionalismos. O povo quer sangue. Em plena crise da sociedade da mercadoria, quem poderá nos ajudar? Bush? Capitão Nascimento? Bin Laden? Le Pen? Lula? Deus? Fica a pergunta de quem seria o melhor ditador.